Achava que já tivessem acabado então eu dei um gole maior na limonada para que acabasse inteira, mas daí ele abriu a porta. Estava completamente nu. Eu olhava aquilo com nojo. A gordura do seu corpo escorria como a de um porco quando está sendo assado. Eu tinha que olhar aquilo e ele me olhava nos olhos com aquela porta aberta. Ela estava imóvel na cama, mas olhava pra mim. Ele colocou um chinelo para calçar a porta para que ela se mantivesse aberta. Ele olhava pra mim. Eles começaram de novo, mas desta vez eu não podia continuar o meu passatempo, eu tinha que ficar olhando aquela cena toda como um cego. Eu via tudo, cada gesto, cada expressão, cada gota de suor que caia no assoalho. Sentia o cheiro de mijo, de merda, de porco misturado com lençóis lavados com sabão em pó barato. Não sei quanto tempo aquilo durou mas para mim pareceu uma eternidade.
O vendedor continuava olhando pra mim. Ele olhava como se eu estivesse sujando o lugar com o meu suor. Peguei um lenço que sempre carrego no meu bolso, peguei o lenço e enxuguei a testa. O lenço ficou com uma mancha preta. Ele continuava olhando pra mim. Eu fui de nova até aquela maldita geladeira que tinha a foto de uma pessoa feliz estampada. Impressionante como nestas geladeiras sempre tem a foto de alguém sorrindo. Deve ser porque todas as pessoas na verdade estão bêbadas. Estão sorrindo por pura embriaguez.
Eu tenho que tirar essas coisas de dentro de mim. Quem me vê dando aulas de português para as futuras professoras não imagina que eu tenho essa podridão dentro de mim. Ninguém imagina que um homem pacato como eu fosse entrar um dia em uma loja de conveniência para comprar uma garrafinha de água sem gás e que agora estaria aqui implorando para vocês que façam dele um fenômeno. Implorando que me entendam e me coloquem em algum noticiário, porque eu passei a maior parte da minha vida sem fazer nada. Eu podia ter cometido um crime, podia ter fechado a merda daquela porta e ter saído correndo. Eu podia ter tomado comprimidos para me matar, poderia ter me drogado, poderia ter batido na cara daquele maldito vendedor que me tratou como se fosse um verme, mas a verdade é que eu nunca fiz nada. Nunca contei a minha mãe como o seu marido transava com aquela menina de doze anos. E ela morreu achando que ele era um santo homem, o homem mais santo que alguém podia ter visto andando pelo mundo. Ele era importante. Ele era um porco imundo reconhecido pelo que tinha feito pela comunidade. Andava na rua com o seu queixo erguido. E essa mosca nunca deu o seu testemunho.
Por isso que eu não posso dar livre vazão aos meus pensamentos, porque eles são feitos de imagens horríveis como esta. Eu queria que vocês compreendessem agora que eu preciso que alguém me ateste como um fenômeno de imobilidade, que alguém diga que eu sou um Búfalo no Canadá ou uma arvorezinha com flores brancas.
Escrito por cintia às 13h52
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Eu entrei na loja de conveniência às quatro horas. Eu queria água e como eu já disse o atendente me olhou de maneira pernóstica. Fui a uma daquelas geladeiras cedidas pelas empresas de bebida e fiquei observando o que eu queria na verdade. Eu não queria estará li, nunca quis. Não gosto daquele ambiente cheio de luzinhas. Painéis brilhantes. Não gosto de painéis brilhantes. Eu me senti um pouco mal e me apoiei sobre um balcão. Estava muito calor e eu não estava com uma roupa apropriada para aquele calor, eu usava uma calça de cor escura, um azul muito forte, quase preto, uma camisa clara, não exatamente branca, mas eu não saberia definir muito bem a sua cor, porque nunca pude aprender cores muito bem. Eu nunca tive aquela caixa de lápis de cor enormes que as crianças do meu tempo tinham e que vinha escrito o nome da cor. A minha caixa tinha apenas seis lápis: azul , vermelho, amarelo, verde, preto e branco. A primeira vez que eu soube que existia uma cor chamada salmão foi quando eu fui comprar a minha casa e um vendedor orgulhoso disse que ela já estava pintada de salmão. Tinha sido recém pintada de salmão. Estava linda, linda. Quando cheguei lá não gostei da cor e não comprei a casa. Procurei uma casa que fosse branca. Não posso morar num lugar que tem cor de peixe.
Escrito por cintia às 13h51
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Eu tomava a limonada lentamente, mas muito lentamente. Eu odeio limões. Não tolero limões. Mas eu tinha que tomar aquela limonada inteira porque a moça tinha me oferecido e daí eles iam entrar no quarto e eu tinha que ficar fazendo alguma coisa. Eles entrava e eu tinha que fingir que não via nada, que não ouvia nada, que não sentia aquele cheiro azedo que sempre me embrulhava o estômago. Eu tinha que ficar ali parado como uma pessoa com deficiências múltiplas: cego, surdo e mudo. Daí eu desenvolvi um hábito. Um hábito bem engraçado. Eu adorava fazer isso porque ninguém nunca percebia e eu passaria horas assim. Eu colocava a limonada entre as pernas, o copo de limonada entre as pernas e assim eu sentia que os meus testículos ficavam mais gelados. Eu prendia a respiração, depois soprava, mas não deixava o ar sair. Esse era o truque porque os meus testículos ficavam se mexendo e iam se refrescando com a sua dancinha. Eu chamava de a dancinha dos testículos. De vez quando eu precisava dar um gole naquela maldita limonada que ela sempre fazia com muito açúcar. Nestes momentos eu me lembrava onde estava e me lembrava que na verdade devia parecer um portador de deficiências múltiplas porque eu não ouvia, nem via, nem sentia o cheiro azedo, nem nunca falei pra ninguém. Mas ele insistia em fazer aquele barulho horrível de animal e ela não respondia, ela era apenas silêncio. Nunca ouvi uma respiração dela que fosse diferente. Acho que parava de respirar para não sentir aquele cheiro de porco azedo.
Eu gostaria de ressaltar a importância de todas as coisas, das menores sobretudo, daquelas que passam escondidas imperceptíveis. Eu gostaria que vocês observassem cada pequenina mosca.
Ele disse:
— A testemunha era uma mosca.
O outro respondeu:
— Jamais, não havia mosca alguma ali. Ninguém viu nada porque nunca houve nada.
Ele disse:
— Uma mosca que estava bem no meio do seu nariz.
O outro respondeu:
— Não estava no meu nariz, estava no batente da porta.
Eu era uma pequenina mosca que testemunhava tudo aquilo, mas não podia dizer nada. Mas eu estava lá. Não pensem que eu não estivesse, porque, por mais que eu não dissesse nada, eu estava lá. Imóvel, mas presente.
Escrito por cintia às 13h51
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— Você está com sede?
— Não.
— Mas você parece estar com sede.
— …
— Quer uma limonada?
— Não.
— Aceite.
— Se ele não quiser não tem problema nenhum, ele pode não querer.
— Ele não tem o que querer. Tem que aproveitar quando alguém quer dar alguma coisa pra ele, porque com essa cara feia ninguém nunca quer dar nada.
— Quero sim, obrigado.
— Está gostosa?
— Não use esse linguajar na frente do menino, sua imunda.
Escrito por cintia às 13h51
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Eu gostaria de ressaltar a importância de todas as coisas. Todas as coisas eu disse. Não disse que são apenas algumas coisas importantes, como a maioria das pessoas costuma acreditar. Todas as coisas do mundo e fora dele tem uma importância cabala para tudo o que existe. Existir. Não citarei exemplos porque seria uma redundância absurda, como vocês mesmos poderão observar. Mas se eu fosse uma arvorezinha com folhinhas verdes e florezinhas brancas, vocês podem acreditar que eu seria tão importante como um búfalo gigante no Canadá. Não sei se existem Búfalos no Canadá, mas se existirem a coisa toda acontece dessa maneira que eu disse. Nunca muda muito. Só se por vez ou outra algumas coisas forem realmente diferentes, daí talvez eu possa dizer que esteja errado mesmo., Quer dizer, se em algum noticiário televisivo alguém, por um acaso disser que alguma coisa é fenomenal , então aquela coisa passa a ser um fenômeno. Mesmo que você pense diferente, porque o noticiário televisivo é uma prova científica atestada de um fenômeno. E como todo mundo quer ser um fenômeno, então vocês estão acompanhando o que eu penso também.
O que eu tenho a propor hoje é algo muito simples, mas que depende da compreensão e da colaboração de todos. Eu não dou exemplos, apesar de querer parecer didático, mas eu tenho que contar uma história para vocês. Eu preciso contar esta história para que todos compreendam a necessidade do que viemos fazer aqui esta noite e eu queria que soubesse, de antemão, que não há nenhuma conotação religiosa em tudo isso. Eu preciso contar um pouco de mim, eu não sou assim como uma árvore com folhas brancas e nem um Búfalo no Canadá, mas eu quero mostrar pra vocês que eu quero e posso ser atestado como um fenômeno. Por isso eu quero a máxima compreensão porque não é a qualquer minuto que eu vou dizer pra vocês as verdades que ocupam a minha mente. Não. Eu posso dizê-las muito sutilmente. Não pretendo ser didático, por isso não vou dar exemplos. Vou apenas contar essa história.
Eu entrei um dia em uma loja de conveniência, destas que as crianças entram para comprar porcarias a um preço abusivo. É realmente tudo muito mais caro do que se eu fosse a um supermercado qualquer, mas essas porcarias parecem diferentes quando estão ali. Deve ser porque ninguém compra. Ninguém compra essas porcarias em lojas de conveniência como a que eu entrei porque o prazo de validade da maioria das coisas está quase para vencer, com exceção das bebidas. As bebidas nunca estão com o prazo de validade vencido porque a maioria das pessoas são alcoólatras inconfessos e, portanto, levantam às duas e meia da manhã para comprar um litro de qualquer coisa alcoólica. Eu não bebo. Sou completamente abstêmio. Não bebo, não fumo, não consumo nenhum tipo de substância química que seja nociva ao meu organismo ou que possa causar torpor, mas isso tudo não é importante para a compreensão do motivo para o qual chegamos aqui hoje. Também não pratico sexo e o único motivo para eu não faze-lo é porque acho que o meu corpo não deve ser maculado com isso. Abstive-me de tudo apenas por causa de um dia como hoje. Entrei na maldita loja de conveniência para comprar água. Água. Eu só entrei para comprar água. Olhei para o atendente que me olhava de uma maneira pernóstica. Eu estava suando. Eu entrei naquela maldita loja para comprar água porque eu estava suando. Eu não tenho que provar nada a ninguém, mas eu fui durante anos tratado como um porco por aquele homem imundo e eu comecei a suar ainda muito jovem porque, na verdade, eu era um porco, um animal. Mas todas as coisas são importantes. Sobretudo se elas aparecerem em algum noticiário de TV, daí elas adquirem uma importância mundial, uma importância ímpar, elas passam a ser fenômenos. Naquele dia eu não pude ainda ser um fenômeno, mas agora eu posso. Hoje eu posso. E hoje eu preciso que vocês compreendam. Não quero dar exemplos, mas eu fui tratado como um porco do dia em que nasci até hoje. E esse porco entro às quatro e meia da tarde naquela maldita loja de conveniência com todos os seus enfeites para comprar um maldito copo d’água. Eu estava com sede. Eu tenho sede. Se alguém aqui nunca teve sede na vida, eu sugiro que essa pessoa procure um médico, porque tem problemas. Mas se quiser tornar-se um fenômeno, então vá a uma emissora de televisão.
Escrito por cintia às 13h50
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Ele sempre sentava naquele mesmo banco de praça para ler o jornal pela manhã. Era a maneira de relaxar antes de começar o seu fatigante trabalho como farmacêutico.
Aproveitava para atualizar-se do mundo e também do bairro, afinal era esse o horário que ouvia as notícias trazidas pelos que esperavam o ônibus no ponto em frente. Ao mesmo tempo em que sabia da alta do café, da gasolina ou que os bancos não repassavam a baixa dos juros, também ia sabendo sobre o preocupante resfriado do seu Reginaldo que já durava três anos, o casamento da filha da Dona Marcelina, o desemprego do Felipe Nogueira, que, agora, inventou de ser cantor na TV e, acima de tudo, tinha notícias de Margarete.
Margarete não era moça bonita como a gente vê nas novelas, mas era uma moça digna, honesta e muito, mas muito alegre. Quando Margarete passava, mesmo que não dissesse nada, as pessoas já começavam involuntariamente a sorrir:
— Bom dia, Margarete!
— Bom dia! — e aquela resposta iluminava como um holofote.
Mas nos últimos tempos, Margarete tinha apagado um pouco seu brilho — Não que ela tivesse deixado de ser a moça simpática que sempre fora, mas a alegria, essa sim, a havia abandonado. Os olhos não cintilavam mais, não andava mais ao pulinhos nem dava seus beijinhos de passarinho nas crianças que se machucavam. E a dor de Margarete tinha um nome: Mário, seu namorado.
Mário era um excelente mecânico de automóveis que morava no bairro vizinho, mas que resolveu abrir a sua oficina em frente à farmácia, só que do outro lado da praça. Ele era um moço bonito, vaidoso, trabalhador, e, em sua lista de predicados havia aquele que agia como um veneno, era ciumento. E, nos últimos tempos, pelo que dava para se ouvir daquele banco de praça, ele tinha dado às agressividades.
Margarete, a moça do sorriso embriagador, agora sofria como um passarinho que é preso.
E Mário não ficava feliz apenas em vigiá-la pessoalmente, ele também arranjou comparsas, gente que se ocupava em observar as idas e vindas de Margarete ao trabalho, à casa dos avós, à padaria e a casa de Rita, que era a melhor amiga de Margarete e também o lugar que Mário mais suspeitava.
Assim, sentado naquele banco de praça, ele ia passando os dias, observando o que acontecia ao redor, antes de se entregar ao fatigante ritual de frascos e fórmulas. Sentava-se e o mundo passava por ali.
Escrito por cintia às 12h58
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Iracema se chamava Iracema, mas não era índia. Seu pai é que gostava muito de José de Alencar, sem nunca ter lido, é claro. Mas ele o considerava o maior escritor da literatura nacional, depois de Machado (o de Assis), que ele também nunca lera, mas colocou o nome de sua outra filha de Capitu que, por ironia, era estrábica. Deviam ser os tais olhos de ressaca…
Havia também um menino, Karamazov, que ele nomeou num rompante anti-nacionalista, ou antes, porque não soubesse que Dostoievski não era um autor nacional. Ele sempre pensou que aquela coleção de clássicos da Editora Abril, aqueles livros bonitos com capa vermelha e letras douradas, fosse apenas de autores brasileiros. Nunca havia lido um livro sequer, nunca tinha nem aberto uma única capa. Sabia dos livros apenas o que outros diziam, mas era apaixonado por literatura.
Os filhos também adoravam aqueles livros, era o melhor porta-camisinhas que poderiam ter em casa. O pai era muito rigoroso e jamais permitiria um comportamento lascivo em sua residência. A mãe, no entanto, não existia. Não que ela não existisse de verdade, mas ficava ali pairando, gerando filhos e aceitando os nomes que o marido planejava, além de cuidar dos livros, que ela também nunca lera, mas sempre abria.
“O próximo, se for menino, vai chamar Casmurro!” Dizia calmamente a traçar, de forma trágica e sem sabe-lo, o destino do garoto.
E queria ter uma prole enorme, agora que havia passado no concurso do Banco do Brasil e podia sustentá-los. Tinha um salário fixo, o pingadinho de todo mês, mais a cesta básica, que garantia oito exatos dias da alimentação da família.
E ele continuava assim. Pedia para a mulher tirar o pó dos livros e passar lustra-móveis em suas capas.
Também assinava a uma série de jornais e revistas. Gostava da quantidade. Mas não tinha nenhuma opinião sobre o mundo, porque não sabia exatamente o que estava acontecendo. Nunca abrira nada.
Os filhos, no entanto, achavam aquele o melhor meio de combinar encontros às escondidas. Bilhetes eram estrategicamente colocados dentro dos cadernos.
Assim a vida de Capitu, Iracema e Karamazov seguia muito feliz, à espera do caçula Casmurro, a quem introduziriam na hábil arte da leitura.
Escrito por cintia às 18h05
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A VOZ
Judite era uma menina bem pequena. Tinhas mais ou menos um palmo de altura.
E seu grande sonho era ser cantora.
Cantava praticamente desde que nascera, tinha uma voz possivelmente muito afinada. Digo possivelmente, porque a altura não era a única coisa baixa de Judite. Ela também tinha uma voz inaudível, mas mesmo assim queria ser cantora. Uma vez tinha visto um filme onde uma cantora entrava e todos a ficavam olhando. Ela achou aquilo lindo e pronto: enfiou na cabeça que queria seguir o mesmo destino.
Foi procurar um médico de voz.
— Menina, diga 33.
— 33…
— Por favor, diga trinta e três.
— 33…
— Assim vai ser impossível examiná-la.
— Mas doutor, eu tenho esse sonho de ser cantora!
— Eu lamento muito mas não posso ouvi-la.
Judite começou a chorar de uma maneira como nunca tinha feito antes. Chorava um choro alto, estridente. O consultório inteiro estremeceu.
O médico olhava perplexo, nunca tinha ouvido um choro naquela altura. Era assustador!
E quanto mais ela chorava, mais alto e estridente ficava o choro. Não era apenas o consultório que estremecia agora, mas a rua toda começava a tremer; nas lojas, as vitrines se arrebentavam como se estivessem sendo atingidas por metralhadoras daquelas incríveis que têm nomes com letras e números. A rua ia se arrebentando pouco a pouco, o asfalto levantava e os carros iam se desgovernando.
Depois foi a vez do bairro ruir. De rua a rua, o estremecimento se alastrando.
Daí foi a vez dos incêndios e da pane elétrica. A cidade era a imagem do caos.
Os limites da destruição iam se alastrando e em breve outros municípios seriam também atingidos. Repórteres pululavam em torno do consultório do tal médico de voz.
Todos queriam saber a origem da tragédia.
Eis que Judite saiu e viu que todos a observavam. Parou de chorar.
O médico, ciente de suas obrigações, voltou a examiná-la.
— Menina, diga 33.
— 33…
— Por favor, diga trinta e três.
— 33…
— Assim vai ser impossível examiná-la.
Escrito por cintia às 22h04
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O ESPELHO
Ela se olhava muito no espelho. Não por muito tempo, mas muitas vezes.
Estava sempre conferindo, observando, avaliando.
Não tinha um ponto específico que ela se ativesse, mas procurava reconhecer a harmonia do todo.
Um dia, porém, como os dias não são iguais, não conseguiu se olhar espelho. Foi para cama direto e nem se deu conta do que havia acontecido.
No dia seguinte, saiu sem novamente se olhar no espelho. Ficou um pouco incomodada, mas pensou que aquilo não fosse causar grandes danos.
Fez o seu percurso normalmente, sem grandes interferências, não olhou o vidro de nenhuma vitrine, não procurou seu reflexo em um carro, no espelho de uma loja, nem passou perto dos camelôs que vendem óculos. Ignorou tudo isso sem notar.
Também não notou que não mais caminhava, mas flanava. Primeiro pelas grandes e movimentadas avenidas, depois por ruas menores, ruelas e finalmente os becos. Deslizava suavemente sua perambulância.
Não tinha mais peso em seu corpo.
Não tinha mais corpo.
Escrito por cintia às 11h38
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VISITA AO ZOOLÓGICO
Eles estavam em fila indiana. Iam todos para o Jardim Zoológico.
Uma menina cheirou o cabelo de Clara e gritou para todo mundo ouvir: “Olha só ela lava o cabelo com sabão!”
Era o fim do mundo. O fim do passeio. O fim de todas as alegrias de uma menininha de 8 anos que estava apenas começando em sua vida social. Agora todos sabiam que ela lavava o cabelo com sabão e, para piorar um pouco mais as coisas, não era um sabão especial de coco comprado em alguma loja chic, era o sabão feito com sobras de outros sabões e muita soda pelas hábeis mãos de sua mãe.
Ela já estava se acostumando a estes episódios de exposição: um dia alguém dizia que o tênis dela era o mesmo que o do irmão, e era verdade, no outro, descobriam que sua camisa era feita do tecido de lençóis velhos. Ninguém podia dizer que sua família não era criativa, mas o que todos percebiam não era a criatividade, os dotes artísticos, todos percebiam que ela era pobre.
Tinha conseguido uma bolsa para estudar naquele colégio de gente rica. Tinha estudado muito para isso. Mas não conseguia sobrepujar as constantes humilhações, as revelações diárias de sua miséria.
“O cabelo da Clara fede sabão!”
E todos os outros cabelos tinham cheiros maravilhosos: xampu de alecrim, jaborandi. Ah! Como ela queria um dia poder usar um xampu de jaborandi!
Mas, como sempre, e, apesar de sua dor, teve que ignorar o que todos diziam para ir ao tão esperado passeio. Muitas contas e contenções foram feitas em sua casa para que ela pudesse fazer a tal visita ao jardim Zoológico.
Todos entravam no ônibus e Maria Cecília não parava de comentar o cheiro do cabelo de Clara.
Bem, de Maria Cecília não há muito a se dizer: era rica, herdeira de uma loja de ferragens, ia se casar com o Felício, sem dúvida, cujo pai tinha um Supermercado; tinha lindas bonecas, e uma comprida cabeleira brilhante e, naquele dia, completava 8 anos. Resolveu levar o seu bolo de aniversário para comemorar perto dos elefantes. A mãe disse que daria sorte.
No ônibus correu tudo dentro do esperado: jogaram-se coisas, humilharam-se mutuamente, gritaram, correram etc. Quando estavam no meio do caminho, Maria Cecília teve um chilique:
— Professora, eu não agüento mais ficar com essa caixa idiota!
— Cicinha, sua mãe pediu para que você abrisse o seu bolo apenas à frente da jaula dos elefantes, lembra-se — reiterou brandamente a mestra.
— Mas eu quero abrir agora! — gritou Cicinha muito persuasiva.
A dedicada professora resolveu corresponder os desejos da menina, organizou a turma em volta do bolo da maneira que pode.
— Você não acha que está muito apertado? — indagou em uma última tentativa.
— Não, não, está ótimo!
Acenderam as velas e começaram os parabéns.
Clara, como sempre, olhava tudo aquilo à distância. Nunca participava ativamente dos eventos sociais.
Tudo correia às mil maravilhas, os meninos, inclusive o Felício bagunçavam os “Parabéns” reiniciando a canção sempre do mesmo ponto várias vezes e as meninas tentavam manter a compostura com suas bonecas caras nas mãos.
De repente, começou um movimento estranho. De onde Clara estava sentada ela não via muito bem o quê, mas percebia que algo estava queimando, porque a chama era enorme.
— Fogo! — gritou Lucinda desesperada — o cabelo da Cicinha está pegando fogo!
O Quê? O cabelo da Cicinha estava pegando fogo? Clara se levantou e chegou mais perto para olhar. No caminho pegou a blusa novinha da Adriana e tacou na cabeça da menina que gritava e se chacoalhava toda. Em pouco tempo o fogo tinha sido apagado. Mas ficou aceso tempo suficiente para queimas um boa parte da cabeleira brilhante da menina.
Agora cicinha chorava baixinho, escondida no fundo do ônibus, enquanto Clara era convidada para jogar bafo com os meninos. Afinal, ela era uma heroína.
Escrito por cintia às 08h55
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TERESO
Era uma vez um coelho chamado Tereso.
Ele era amigo de todos os outros coelhos de seu bairro, com exceção de um: o Mane Angélico. Não pensem vocês que esta rivalidade tivesse algum motivo específico. Eles não se gostavam e pronto. Tereso não podia ouvir o nome de Angélico e vive-versa, mas nenhum dos dois não sabia exatamente o porquê.
Havia também neste bairro uma coelha chamada Filoca, que era linda e cheirosa, além de ter um pêlo que parecia de capa de revista: uma coisa realmente impressionante.
Pois é, aconteceu exatamente isso que vocês estão pensando: o Tereso e o Angélico se apaixonaram pela Filoca.
Tudo começou na terça-feira gorda, quando Filoca foi ao baile vestida de odalisca. Isso já era de mais! Uma coelhinha bonita, cheiro, pelo brilhando e aqueles sininhos fazendo barulhinho entre os véus! Nenhum coelho do bairro resistiu e Mane declarou o seu amor ali mesmo, sem titubear. Dizem as más línguas que foi o efeito dos agrotóxicos do suco de cenoura, mas eu, que também bebi do suco, sei que foi só uma incontrolável explosão de amor.
O Tereso viu tudo isso e ficou admirado: como um coelho pode ser tão valente!
Eu não disse isso antes, mas o Tereso era famoso por ser valente e enfrentar qualquer um que pisasse no seu calo. Já deu sopapo até em cachorro e gato. Mas aquilo, de declarar o amor assim, ele nunca teve coragem. O Mane era o seu ídolo agora e ele era o único merecedor do amor de Filoca, porque era um coelho entre coelhos.
Mas Filoca não via as coisas dessa maneira, ela ficou interessada no Lourenço que era um coelhão gordo, muito premiado.
Mane Angélico passou a quaresma inteira jururu em casa, não queria falar com ninguém. Queria chorar suas mágoas sozinho. Passou assim 39 dias.
No domingo de Páscoa, quando todos iam começar a procurar os ovos que estavam escondidos sua campainha tocou:
— O que você veio fazer aqui? — perguntou Mane à sua visita.
— Vim te trazer esse ovo para você comemorar a Páscoa. Foi o maior que encontrei na loja do seu Adamastor. Você vai precisar comer um bocado pra ficar do tamanho do Lourenço.
— Entre, por favor.
Naquele domingo, os dois riram e contaram várias histórias sobre o tempo que se odiavam. Depois disso se tornaram grandes amigos.
Quanto à Filoca? Ah! Casou com o Lourenço, mas eles nem se importaram. Compraram presente e tudo.
Escrito por cintia às 08h54
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