A VOZ
Judite era uma menina bem pequena. Tinhas mais ou menos um palmo de altura.
E seu grande sonho era ser cantora.
Cantava praticamente desde que nascera, tinha uma voz possivelmente muito afinada. Digo possivelmente, porque a altura não era a única coisa baixa de Judite. Ela também tinha uma voz inaudível, mas mesmo assim queria ser cantora. Uma vez tinha visto um filme onde uma cantora entrava e todos a ficavam olhando. Ela achou aquilo lindo e pronto: enfiou na cabeça que queria seguir o mesmo destino.
Foi procurar um médico de voz.
— Menina, diga 33.
— 33…
— Por favor, diga trinta e três.
— 33…
— Assim vai ser impossível examiná-la.
— Mas doutor, eu tenho esse sonho de ser cantora!
— Eu lamento muito mas não posso ouvi-la.
Judite começou a chorar de uma maneira como nunca tinha feito antes. Chorava um choro alto, estridente. O consultório inteiro estremeceu.
O médico olhava perplexo, nunca tinha ouvido um choro naquela altura. Era assustador!
E quanto mais ela chorava, mais alto e estridente ficava o choro. Não era apenas o consultório que estremecia agora, mas a rua toda começava a tremer; nas lojas, as vitrines se arrebentavam como se estivessem sendo atingidas por metralhadoras daquelas incríveis que têm nomes com letras e números. A rua ia se arrebentando pouco a pouco, o asfalto levantava e os carros iam se desgovernando.
Depois foi a vez do bairro ruir. De rua a rua, o estremecimento se alastrando.
Daí foi a vez dos incêndios e da pane elétrica. A cidade era a imagem do caos.
Os limites da destruição iam se alastrando e em breve outros municípios seriam também atingidos. Repórteres pululavam em torno do consultório do tal médico de voz.
Todos queriam saber a origem da tragédia.
Eis que Judite saiu e viu que todos a observavam. Parou de chorar.
O médico, ciente de suas obrigações, voltou a examiná-la.
— Menina, diga 33.
— 33…
— Por favor, diga trinta e três.
— 33…
— Assim vai ser impossível examiná-la.
Escrito por cintia às 22h04
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O ESPELHO
Ela se olhava muito no espelho. Não por muito tempo, mas muitas vezes.
Estava sempre conferindo, observando, avaliando.
Não tinha um ponto específico que ela se ativesse, mas procurava reconhecer a harmonia do todo.
Um dia, porém, como os dias não são iguais, não conseguiu se olhar espelho. Foi para cama direto e nem se deu conta do que havia acontecido.
No dia seguinte, saiu sem novamente se olhar no espelho. Ficou um pouco incomodada, mas pensou que aquilo não fosse causar grandes danos.
Fez o seu percurso normalmente, sem grandes interferências, não olhou o vidro de nenhuma vitrine, não procurou seu reflexo em um carro, no espelho de uma loja, nem passou perto dos camelôs que vendem óculos. Ignorou tudo isso sem notar.
Também não notou que não mais caminhava, mas flanava. Primeiro pelas grandes e movimentadas avenidas, depois por ruas menores, ruelas e finalmente os becos. Deslizava suavemente sua perambulância.
Não tinha mais peso em seu corpo.
Não tinha mais corpo.
Escrito por cintia às 11h38
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VISITA AO ZOOLÓGICO
Eles estavam em fila indiana. Iam todos para o Jardim Zoológico.
Uma menina cheirou o cabelo de Clara e gritou para todo mundo ouvir: “Olha só ela lava o cabelo com sabão!”
Era o fim do mundo. O fim do passeio. O fim de todas as alegrias de uma menininha de 8 anos que estava apenas começando em sua vida social. Agora todos sabiam que ela lavava o cabelo com sabão e, para piorar um pouco mais as coisas, não era um sabão especial de coco comprado em alguma loja chic, era o sabão feito com sobras de outros sabões e muita soda pelas hábeis mãos de sua mãe.
Ela já estava se acostumando a estes episódios de exposição: um dia alguém dizia que o tênis dela era o mesmo que o do irmão, e era verdade, no outro, descobriam que sua camisa era feita do tecido de lençóis velhos. Ninguém podia dizer que sua família não era criativa, mas o que todos percebiam não era a criatividade, os dotes artísticos, todos percebiam que ela era pobre.
Tinha conseguido uma bolsa para estudar naquele colégio de gente rica. Tinha estudado muito para isso. Mas não conseguia sobrepujar as constantes humilhações, as revelações diárias de sua miséria.
“O cabelo da Clara fede sabão!”
E todos os outros cabelos tinham cheiros maravilhosos: xampu de alecrim, jaborandi. Ah! Como ela queria um dia poder usar um xampu de jaborandi!
Mas, como sempre, e, apesar de sua dor, teve que ignorar o que todos diziam para ir ao tão esperado passeio. Muitas contas e contenções foram feitas em sua casa para que ela pudesse fazer a tal visita ao jardim Zoológico.
Todos entravam no ônibus e Maria Cecília não parava de comentar o cheiro do cabelo de Clara.
Bem, de Maria Cecília não há muito a se dizer: era rica, herdeira de uma loja de ferragens, ia se casar com o Felício, sem dúvida, cujo pai tinha um Supermercado; tinha lindas bonecas, e uma comprida cabeleira brilhante e, naquele dia, completava 8 anos. Resolveu levar o seu bolo de aniversário para comemorar perto dos elefantes. A mãe disse que daria sorte.
No ônibus correu tudo dentro do esperado: jogaram-se coisas, humilharam-se mutuamente, gritaram, correram etc. Quando estavam no meio do caminho, Maria Cecília teve um chilique:
— Professora, eu não agüento mais ficar com essa caixa idiota!
— Cicinha, sua mãe pediu para que você abrisse o seu bolo apenas à frente da jaula dos elefantes, lembra-se — reiterou brandamente a mestra.
— Mas eu quero abrir agora! — gritou Cicinha muito persuasiva.
A dedicada professora resolveu corresponder os desejos da menina, organizou a turma em volta do bolo da maneira que pode.
— Você não acha que está muito apertado? — indagou em uma última tentativa.
— Não, não, está ótimo!
Acenderam as velas e começaram os parabéns.
Clara, como sempre, olhava tudo aquilo à distância. Nunca participava ativamente dos eventos sociais.
Tudo correia às mil maravilhas, os meninos, inclusive o Felício bagunçavam os “Parabéns” reiniciando a canção sempre do mesmo ponto várias vezes e as meninas tentavam manter a compostura com suas bonecas caras nas mãos.
De repente, começou um movimento estranho. De onde Clara estava sentada ela não via muito bem o quê, mas percebia que algo estava queimando, porque a chama era enorme.
— Fogo! — gritou Lucinda desesperada — o cabelo da Cicinha está pegando fogo!
O Quê? O cabelo da Cicinha estava pegando fogo? Clara se levantou e chegou mais perto para olhar. No caminho pegou a blusa novinha da Adriana e tacou na cabeça da menina que gritava e se chacoalhava toda. Em pouco tempo o fogo tinha sido apagado. Mas ficou aceso tempo suficiente para queimas um boa parte da cabeleira brilhante da menina.
Agora cicinha chorava baixinho, escondida no fundo do ônibus, enquanto Clara era convidada para jogar bafo com os meninos. Afinal, ela era uma heroína.
Escrito por cintia às 08h55
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TERESO
Era uma vez um coelho chamado Tereso.
Ele era amigo de todos os outros coelhos de seu bairro, com exceção de um: o Mane Angélico. Não pensem vocês que esta rivalidade tivesse algum motivo específico. Eles não se gostavam e pronto. Tereso não podia ouvir o nome de Angélico e vive-versa, mas nenhum dos dois não sabia exatamente o porquê.
Havia também neste bairro uma coelha chamada Filoca, que era linda e cheirosa, além de ter um pêlo que parecia de capa de revista: uma coisa realmente impressionante.
Pois é, aconteceu exatamente isso que vocês estão pensando: o Tereso e o Angélico se apaixonaram pela Filoca.
Tudo começou na terça-feira gorda, quando Filoca foi ao baile vestida de odalisca. Isso já era de mais! Uma coelhinha bonita, cheiro, pelo brilhando e aqueles sininhos fazendo barulhinho entre os véus! Nenhum coelho do bairro resistiu e Mane declarou o seu amor ali mesmo, sem titubear. Dizem as más línguas que foi o efeito dos agrotóxicos do suco de cenoura, mas eu, que também bebi do suco, sei que foi só uma incontrolável explosão de amor.
O Tereso viu tudo isso e ficou admirado: como um coelho pode ser tão valente!
Eu não disse isso antes, mas o Tereso era famoso por ser valente e enfrentar qualquer um que pisasse no seu calo. Já deu sopapo até em cachorro e gato. Mas aquilo, de declarar o amor assim, ele nunca teve coragem. O Mane era o seu ídolo agora e ele era o único merecedor do amor de Filoca, porque era um coelho entre coelhos.
Mas Filoca não via as coisas dessa maneira, ela ficou interessada no Lourenço que era um coelhão gordo, muito premiado.
Mane Angélico passou a quaresma inteira jururu em casa, não queria falar com ninguém. Queria chorar suas mágoas sozinho. Passou assim 39 dias.
No domingo de Páscoa, quando todos iam começar a procurar os ovos que estavam escondidos sua campainha tocou:
— O que você veio fazer aqui? — perguntou Mane à sua visita.
— Vim te trazer esse ovo para você comemorar a Páscoa. Foi o maior que encontrei na loja do seu Adamastor. Você vai precisar comer um bocado pra ficar do tamanho do Lourenço.
— Entre, por favor.
Naquele domingo, os dois riram e contaram várias histórias sobre o tempo que se odiavam. Depois disso se tornaram grandes amigos.
Quanto à Filoca? Ah! Casou com o Lourenço, mas eles nem se importaram. Compraram presente e tudo.
Escrito por cintia às 08h54
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