Ele sempre sentava naquele mesmo banco de praça para ler o jornal pela manhã. Era a maneira de relaxar antes de começar o seu fatigante trabalho como farmacêutico.
Aproveitava para atualizar-se do mundo e também do bairro, afinal era esse o horário que ouvia as notícias trazidas pelos que esperavam o ônibus no ponto em frente. Ao mesmo tempo em que sabia da alta do café, da gasolina ou que os bancos não repassavam a baixa dos juros, também ia sabendo sobre o preocupante resfriado do seu Reginaldo que já durava três anos, o casamento da filha da Dona Marcelina, o desemprego do Felipe Nogueira, que, agora, inventou de ser cantor na TV e, acima de tudo, tinha notícias de Margarete.
Margarete não era moça bonita como a gente vê nas novelas, mas era uma moça digna, honesta e muito, mas muito alegre. Quando Margarete passava, mesmo que não dissesse nada, as pessoas já começavam involuntariamente a sorrir:
— Bom dia, Margarete!
— Bom dia! — e aquela resposta iluminava como um holofote.
Mas nos últimos tempos, Margarete tinha apagado um pouco seu brilho — Não que ela tivesse deixado de ser a moça simpática que sempre fora, mas a alegria, essa sim, a havia abandonado. Os olhos não cintilavam mais, não andava mais ao pulinhos nem dava seus beijinhos de passarinho nas crianças que se machucavam. E a dor de Margarete tinha um nome: Mário, seu namorado.
Mário era um excelente mecânico de automóveis que morava no bairro vizinho, mas que resolveu abrir a sua oficina em frente à farmácia, só que do outro lado da praça. Ele era um moço bonito, vaidoso, trabalhador, e, em sua lista de predicados havia aquele que agia como um veneno, era ciumento. E, nos últimos tempos, pelo que dava para se ouvir daquele banco de praça, ele tinha dado às agressividades.
Margarete, a moça do sorriso embriagador, agora sofria como um passarinho que é preso.
E Mário não ficava feliz apenas em vigiá-la pessoalmente, ele também arranjou comparsas, gente que se ocupava em observar as idas e vindas de Margarete ao trabalho, à casa dos avós, à padaria e a casa de Rita, que era a melhor amiga de Margarete e também o lugar que Mário mais suspeitava.
Assim, sentado naquele banco de praça, ele ia passando os dias, observando o que acontecia ao redor, antes de se entregar ao fatigante ritual de frascos e fórmulas. Sentava-se e o mundo passava por ali.
Escrito por cintia às 12h58
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Iracema se chamava Iracema, mas não era índia. Seu pai é que gostava muito de José de Alencar, sem nunca ter lido, é claro. Mas ele o considerava o maior escritor da literatura nacional, depois de Machado (o de Assis), que ele também nunca lera, mas colocou o nome de sua outra filha de Capitu que, por ironia, era estrábica. Deviam ser os tais olhos de ressaca…
Havia também um menino, Karamazov, que ele nomeou num rompante anti-nacionalista, ou antes, porque não soubesse que Dostoievski não era um autor nacional. Ele sempre pensou que aquela coleção de clássicos da Editora Abril, aqueles livros bonitos com capa vermelha e letras douradas, fosse apenas de autores brasileiros. Nunca havia lido um livro sequer, nunca tinha nem aberto uma única capa. Sabia dos livros apenas o que outros diziam, mas era apaixonado por literatura.
Os filhos também adoravam aqueles livros, era o melhor porta-camisinhas que poderiam ter em casa. O pai era muito rigoroso e jamais permitiria um comportamento lascivo em sua residência. A mãe, no entanto, não existia. Não que ela não existisse de verdade, mas ficava ali pairando, gerando filhos e aceitando os nomes que o marido planejava, além de cuidar dos livros, que ela também nunca lera, mas sempre abria.
“O próximo, se for menino, vai chamar Casmurro!” Dizia calmamente a traçar, de forma trágica e sem sabe-lo, o destino do garoto.
E queria ter uma prole enorme, agora que havia passado no concurso do Banco do Brasil e podia sustentá-los. Tinha um salário fixo, o pingadinho de todo mês, mais a cesta básica, que garantia oito exatos dias da alimentação da família.
E ele continuava assim. Pedia para a mulher tirar o pó dos livros e passar lustra-móveis em suas capas.
Também assinava a uma série de jornais e revistas. Gostava da quantidade. Mas não tinha nenhuma opinião sobre o mundo, porque não sabia exatamente o que estava acontecendo. Nunca abrira nada.
Os filhos, no entanto, achavam aquele o melhor meio de combinar encontros às escondidas. Bilhetes eram estrategicamente colocados dentro dos cadernos.
Assim a vida de Capitu, Iracema e Karamazov seguia muito feliz, à espera do caçula Casmurro, a quem introduziriam na hábil arte da leitura.
Escrito por cintia às 18h05
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