Meu perfil
BRASIL, Sudeste, CATANDUVA, Mulher, de 26 a 35 anos, Portuguese, Livros, Arte e cultura
MSN -




Arquivos
 16/04/2006 a 22/04/2006
 09/04/2006 a 15/04/2006
 02/04/2006 a 08/04/2006

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 Coisa de Mulher




Blog da Cintia Alves
 


Achava que já tivessem acabado então eu dei um gole maior na limonada para que acabasse inteira, mas daí ele abriu a porta. Estava completamente nu. Eu olhava aquilo com nojo. A gordura do seu corpo escorria como a de um porco quando está sendo assado. Eu tinha que olhar aquilo e ele me olhava nos olhos com aquela porta aberta. Ela estava imóvel na cama, mas olhava pra mim. Ele colocou um chinelo para calçar a porta para que ela se mantivesse aberta. Ele olhava pra mim. Eles começaram de novo, mas desta vez eu não podia continuar o meu passatempo, eu tinha que ficar olhando aquela cena toda como um cego. Eu via tudo, cada gesto, cada expressão, cada gota de suor que caia no assoalho. Sentia o cheiro de mijo, de merda, de porco misturado com lençóis lavados com sabão em pó barato. Não sei quanto tempo aquilo durou mas para mim pareceu uma eternidade.

 

O vendedor continuava olhando pra mim. Ele olhava como se eu estivesse sujando o lugar com o meu suor. Peguei um lenço que sempre carrego no meu bolso, peguei o lenço e enxuguei a testa. O lenço ficou com uma mancha preta. Ele continuava olhando pra mim. Eu fui de nova até aquela maldita geladeira que tinha a foto de uma pessoa feliz estampada. Impressionante como nestas geladeiras sempre tem a foto de alguém sorrindo. Deve ser porque todas as pessoas na verdade estão bêbadas. Estão sorrindo por pura embriaguez.

 

Eu tenho que tirar essas coisas de dentro de mim. Quem me vê dando aulas de português para as futuras professoras não imagina que eu tenho essa podridão dentro de mim. Ninguém imagina que um homem pacato como eu fosse entrar um dia em uma loja de conveniência para comprar uma garrafinha de água sem gás e que agora estaria aqui implorando para vocês que façam dele um fenômeno. Implorando que me entendam e me coloquem em algum noticiário, porque eu passei a maior parte da minha vida sem fazer nada. Eu podia ter cometido um crime, podia ter fechado a merda daquela porta e ter saído correndo. Eu podia ter tomado comprimidos para me matar, poderia ter me drogado, poderia ter batido na cara daquele maldito vendedor que me tratou como se fosse um verme, mas a verdade é que eu nunca fiz nada. Nunca contei a minha mãe como o seu marido transava com aquela menina de doze anos. E ela morreu achando que ele era um santo homem, o homem mais santo que alguém podia ter visto andando pelo mundo. Ele era importante. Ele era um porco imundo reconhecido pelo que tinha feito pela comunidade. Andava na rua com o seu queixo erguido. E essa mosca nunca deu o seu testemunho.

 

Por isso que eu não posso dar livre vazão aos meus pensamentos, porque eles são feitos de imagens horríveis como esta. Eu queria que vocês compreendessem agora que eu preciso que alguém me ateste como um fenômeno de imobilidade, que alguém diga que eu sou um Búfalo no Canadá ou uma arvorezinha com flores brancas.



Escrito por cintia às 13h52
[] [envie esta mensagem
]





Eu entrei na loja de conveniência às quatro horas. Eu queria água e como eu já disse o atendente me olhou de maneira pernóstica. Fui a uma daquelas geladeiras cedidas pelas empresas de bebida e fiquei observando o que eu queria na verdade. Eu não queria estará li, nunca quis. Não gosto daquele ambiente cheio de luzinhas. Painéis brilhantes. Não gosto de painéis brilhantes. Eu me senti um pouco mal e me apoiei sobre um balcão. Estava muito calor e eu não estava com uma roupa apropriada para aquele calor, eu usava uma calça de cor escura, um azul muito forte, quase preto, uma camisa clara, não exatamente branca, mas eu não saberia definir muito bem a sua cor, porque nunca pude aprender cores muito bem. Eu nunca tive aquela caixa de lápis de cor enormes que as crianças do meu tempo tinham e que vinha escrito o nome da cor. A minha caixa tinha apenas seis lápis: azul , vermelho, amarelo, verde, preto e branco. A primeira vez que eu soube que existia uma cor chamada salmão foi quando eu fui comprar a minha casa e um vendedor orgulhoso disse que ela já estava pintada de salmão. Tinha sido recém pintada de salmão. Estava linda, linda. Quando cheguei lá não gostei da cor e não comprei a casa. Procurei uma casa que fosse branca. Não posso morar num lugar que tem cor de peixe.



Escrito por cintia às 13h51
[] [envie esta mensagem
]





Eu tomava a limonada lentamente, mas muito lentamente. Eu odeio limões. Não tolero limões. Mas eu tinha que tomar aquela limonada inteira porque a moça tinha me oferecido e daí eles iam entrar no quarto e eu tinha que ficar fazendo alguma coisa. Eles entrava e eu tinha que fingir que não via nada, que não ouvia nada, que não sentia aquele cheiro azedo que sempre me embrulhava o estômago. Eu tinha que ficar ali parado como uma pessoa com deficiências múltiplas: cego, surdo e mudo. Daí eu desenvolvi um hábito. Um hábito bem engraçado. Eu adorava fazer isso porque ninguém nunca percebia e eu passaria horas assim. Eu colocava a limonada entre as pernas, o copo de limonada entre as pernas e assim eu sentia que os meus testículos ficavam mais gelados. Eu prendia a respiração, depois soprava, mas não deixava o ar sair. Esse era o truque porque os meus testículos ficavam se mexendo e iam se refrescando com a sua dancinha. Eu chamava de a dancinha dos testículos. De vez quando eu precisava dar um gole naquela maldita limonada que ela sempre fazia com muito açúcar. Nestes momentos eu me lembrava onde estava e me lembrava que na verdade devia parecer um portador de deficiências múltiplas porque eu não ouvia, nem via, nem sentia o cheiro azedo, nem nunca falei pra ninguém. Mas ele insistia em fazer aquele barulho horrível de animal e ela não respondia, ela era apenas silêncio. Nunca ouvi uma respiração dela que fosse diferente. Acho que parava de respirar para não sentir aquele cheiro de porco azedo.

Eu gostaria de ressaltar a importância de todas as coisas, das menores sobretudo, daquelas que passam escondidas imperceptíveis. Eu gostaria que vocês observassem cada pequenina mosca.

 

Ele disse:

— A testemunha era uma mosca.

O outro respondeu:

— Jamais, não havia mosca alguma ali. Ninguém viu nada porque nunca houve nada.

Ele disse:

— Uma mosca que estava bem no meio do seu nariz.

O outro respondeu:

— Não estava no meu nariz, estava no batente da porta.

 

Eu era uma pequenina mosca que testemunhava tudo aquilo, mas não podia dizer nada. Mas eu estava lá. Não pensem que eu não estivesse, porque, por mais que eu não dissesse nada, eu estava lá. Imóvel, mas presente.



Escrito por cintia às 13h51
[] [envie esta mensagem
]





— Você está com sede?

— Não.

— Mas você parece estar com sede.

— …

— Quer uma limonada?

— Não.

— Aceite.

— Se ele não quiser não tem problema nenhum, ele pode não querer.

— Ele não tem o que querer. Tem que aproveitar quando alguém quer dar alguma coisa pra ele, porque com essa cara feia ninguém nunca quer dar nada.

— Quero sim, obrigado.

— Está gostosa?

— Não use esse linguajar na frente do menino, sua imunda.



Escrito por cintia às 13h51
[] [envie esta mensagem
]





Eu gostaria de ressaltar a importância de todas as coisas. Todas as coisas eu disse. Não disse que são apenas algumas coisas importantes, como a maioria das pessoas costuma acreditar. Todas as coisas do mundo e fora dele tem uma importância cabala para tudo o que existe. Existir. Não citarei exemplos porque seria uma redundância absurda, como vocês mesmos poderão observar. Mas se eu fosse uma arvorezinha com folhinhas verdes e florezinhas brancas, vocês podem acreditar que eu seria tão importante como um búfalo gigante no Canadá. Não sei se existem Búfalos no Canadá, mas se existirem a coisa toda acontece dessa maneira que eu disse. Nunca muda muito. Só se por vez ou outra algumas coisas forem realmente diferentes, daí talvez eu possa dizer que esteja errado mesmo., Quer dizer, se em algum noticiário televisivo alguém, por um acaso disser que alguma coisa é fenomenal , então aquela coisa passa a ser um fenômeno. Mesmo que você pense diferente, porque o noticiário televisivo é uma prova científica atestada de um fenômeno. E como todo mundo quer ser um fenômeno, então vocês estão acompanhando o que eu penso também.

O que eu tenho a propor hoje é algo muito simples, mas que depende da compreensão e da colaboração de todos. Eu não dou exemplos, apesar de querer parecer didático, mas eu tenho que contar uma história para vocês. Eu preciso contar esta história para que todos compreendam a necessidade do que viemos fazer aqui esta noite e eu queria que soubesse, de antemão, que não há nenhuma conotação religiosa em tudo isso. Eu preciso contar um pouco de mim, eu não sou assim como uma árvore com folhas brancas e nem um Búfalo no Canadá, mas eu quero mostrar pra vocês que eu quero e posso ser atestado como um fenômeno. Por isso eu quero a máxima compreensão porque não é a qualquer minuto que eu vou dizer pra vocês as verdades que ocupam a minha mente. Não. Eu posso dizê-las muito sutilmente. Não pretendo ser didático, por isso não vou dar exemplos. Vou apenas contar essa história.

Eu entrei um dia em uma loja de conveniência, destas que as crianças entram para comprar porcarias a um preço abusivo. É realmente tudo muito mais caro do que se eu fosse a um supermercado qualquer, mas essas porcarias parecem diferentes quando estão ali. Deve ser porque ninguém compra. Ninguém compra essas porcarias em lojas de conveniência como a que eu entrei porque o prazo de validade da maioria das coisas está quase para vencer, com exceção das bebidas. As bebidas nunca estão com o prazo de validade vencido porque a maioria das pessoas são alcoólatras inconfessos e, portanto, levantam às duas e meia da manhã para comprar um litro de qualquer coisa alcoólica. Eu não bebo. Sou completamente abstêmio. Não bebo, não fumo, não consumo nenhum tipo de substância química que seja nociva ao meu organismo ou que possa causar torpor, mas isso tudo não é importante para a compreensão do motivo para o qual chegamos aqui hoje. Também não pratico sexo e o único motivo para eu não faze-lo é porque acho que o meu corpo não deve ser maculado com isso. Abstive-me de tudo apenas por causa de um dia como hoje. Entrei na maldita loja de conveniência para comprar água. Água. Eu só entrei para comprar água. Olhei para o atendente que me olhava de uma maneira pernóstica. Eu estava suando. Eu entrei naquela maldita loja para comprar água porque eu estava suando. Eu não tenho que provar nada a ninguém, mas eu fui durante anos tratado como um porco por aquele homem imundo e eu comecei a suar ainda muito jovem porque, na verdade, eu era um porco, um animal. Mas todas as coisas são importantes. Sobretudo se elas aparecerem em algum noticiário de TV, daí elas adquirem uma importância mundial, uma importância ímpar, elas passam a ser fenômenos. Naquele dia eu não pude ainda ser um fenômeno, mas agora eu posso. Hoje eu posso. E hoje eu preciso que vocês compreendam. Não quero dar exemplos, mas eu fui tratado como um porco do dia em que nasci até hoje. E esse porco entro às quatro e meia da tarde naquela maldita loja de conveniência com todos os seus enfeites para comprar um maldito copo d’água. Eu estava com sede. Eu tenho sede. Se alguém aqui nunca teve sede na vida, eu sugiro que essa pessoa procure um médico, porque tem problemas. Mas se quiser tornar-se um fenômeno, então vá a uma emissora de televisão.



Escrito por cintia às 13h50
[] [envie esta mensagem
]



 
  [ Ver arquivos anteriores ]